Cleverton Bueno
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A Grande Migração de 2002 – A Travessia da Ponte

Este artigo descreve a execução do plano de migração dos clientes da antiga plataforma QNX para a nova solução em Flagship/Linux, um processo gradual que foi crucial para reter clientes e modernizar a empresa.

Introdução: A Decisão de Mudar

O ano era 2001. A ponte para o futuro – a nova aplicação de saúde em Flagship rodando em Linux – estava construída e testada internamente. A fortaleza do QNX, embora ainda robusta, mostrava sinais claros de desgaste, não no software, mas no mundo ao seu redor. O hardware estava obsoleto e os clientes sentiam a instabilidade de uma plataforma que parou no tempo. A decisão de migrar era inevitável, mas a execução precisava ser impecável.
Em um ato de prudência e compromisso com a qualidade, a decisão de iniciar a migração foi adiada. Percebemos que o sistema de configuração da nova aplicação ainda não estava no nível de robustez que os nossos clientes mereciam. Durante esse período, um novo e poderoso módulo de configuração foi desenvolvido (o newconf.prg), permitindo um nível de personalização e gestão muito superior. Apenas em meados de 2002, com a ponte reforçada e toda a bagagem pronta, nos sentimos seguros para iniciar a travessia.

O Plano de Batalha: Uma Migração em Fases

Com cerca de 20 clientes operando sistemas críticos na área da saúde, uma migração em "big bang" (todos de uma vez) estava fora de questão. O risco era muito alto. A estratégia adotada foi uma migração gradual e controlada:

  • O Cliente Piloto: O primeiro passo foi escolher um cliente para servir como nosso projeto piloto. A conversa com os clientes foi surpreendentemente tranquila; eles já sentiam os problemas do QNX no dia a dia e receberam a notícia da modernização com alívio, sem sequer questionar a necessidade de investir em um novo parque de máquinas.
  • Acompanhamento e Ajustes: Após a migração do primeiro cliente, dedicamos seis meses a um acompanhamento intensivo. Esse período foi crucial para identificar e corrigir os inevitáveis problemas e realizar os ajustes finos que só a produção real revela.
  • O Rollout Controlado: Apenas após esses seis meses de estabilização, com a aplicação e o processo de migração validados em campo, nos sentimos aptos para migrar o restante da base. A equipe foi dividida e, em um ritmo planejado de cinco clientes por mês, toda a operação da CompCet foi metodicamente transferida para a nova plataforma.

O Desafio Hercúleo: A Migração dos Dados

A parte mais complexa e demorada de todo o processo foi, sem dúvida, a migração dos dados. Foi um capítulo à parte, um trabalho que avisamos aos clientes que seria hercúleo. A extração de anos de informações do sistema de arquivos proprietário do QNX e do banco de dados C-tree era, nas suas próprias palavras, "um parto".

Para os clientes que optaram pela migração dos dados históricos (o que envolvia um custo adicional), o processo era um projeto de um mês inteiro, que envolvia:

  • Desenvolvimento de Ferramentas de Extração: Criei ferramentas customizadas para ler os dados diretamente do ambiente QNX e exportá-los para um formato intermediário, provavelmente em arquivos de texto.
  • Conversão para DBF: Em seguida, outras ferramentas, já no ambiente DOS/Linux, pegavam esses dados intermediários e os convertiam para o formato .DBF, compatível com a nova aplicação em Flagship. Esse processo de duas etapas era necessário para transpor as barreiras entre os sistemas operacionais e as arquiteturas de banco de dados.

O "Dia D": A Virada de Chave no Cliente

O processo prático de migração em cada cliente seguia um roteiro bem definido para minimizar o impacto na operação da clínica ou laboratório:

  • Preparação na Base: O cliente adquiria um novo servidor, que era levado para a sede da CompCet. Durante duas semanas, nossa equipe se dedicava a preparar essa máquina: instalava o Linux (distribuição Conectiva 8), configurava todos os serviços, o banco de dados e a aplicação Flagship, deixando tudo pronto e pré-testado.
  • A Operação de Fim de Semana: Com o servidor pronto, ele era levado ao cliente. A "virada de chave" acontecia durante um fim de semana. A equipe ia ao local, instalava fisicamente o novo servidor na rede, executava os scripts de migração dos dados (previamente extraídos) e passava horas testando cada módulo, cada terminal, cada impressora.
  • Go-Live e Treinamento: Na segunda-feira, a clínica já iniciava a operação no novo sistema. O treinamento era facilitado, pois embora a plataforma fosse nova, a lógica do sistema era familiar aos usuários.

Conclusão: Estancando a Sangria e Respirando Novos Ares

A grande migração de 2002 foi um sucesso retumbante. O benefício mais imediato e vital foi estancar a saída de clientes. A associação da CompCet com uma tecnologia que se tornava obsoleta estava colocando o futuro da empresa em risco. Com a nova aplicação, conseguimos não apenas reter nossos clientes, mas oferecer-lhes um sistema visivelmente superior.
A performance, mesmo em modo texto, era muito mais rápida, graças ao hardware moderno e à eficiência do Linux. Nas estações de trabalho onde os laudos eram gerados, o ambiente gráfico do Linux, rodando o OpenOffice, trouxe uma nova fluidez e aparência profissional aos documentos, com a vantagem de poder integrar imagens diretamente aos laudos, algo impensável no ambiente QNX.
A conclusão da migração marcou o fim de uma era e o início de outra. A gente havia atravessado a ponte que construiu, deixando para trás uma plataforma legada, mas trazendo consigo toda a experiência e a base de clientes. A empresa agora respirava novos ares, pronta para competir e crescer sobre a fundação sólida e aberta do Linux.