Cleverton Bueno
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A Ponte para o Futuro – O Projeto Flagship/Linux

Este texto detalha a descoberta do Flagship, um compilador que permitiu portar a nova aplicação de saúde, desenvolvida internamente em Clipper, para o ambiente Linux, criando uma ponte de modernização para a empresa.

Introdução: As Primeiras Rachaduras na Fortaleza do QNX

No final da década de 90, o sistema de saúde da CompCet em QNX era uma fortaleza. Rápido, estável e maduro, ele era o resultado de mais de uma década de desenvolvimento e refinamento contínuo. No entanto, mesmo as fortalezas mais sólidas podem ser abaladas pelas marés do tempo. O QNX, apesar de toda a sua superioridade técnica em tempo real, havia parado no tempo. O mundo da computação estava se movendo rapidamente em direção a interfaces gráficas e plataformas de hardware padronizadas, enquanto nosso sistema ainda dependia de terminais burros e de um ecossistema de hardware (placas ISA, etc.) que se tornava cada vez mais difícil de encontrar e manter.
Para muitos clientes, que já possuíam terminais burros e valorizavam a performance, o sistema ainda era perfeito. Mas a percepção de que estávamos em uma ilha tecnológica, sofrendo para encontrar peças e limitados a uma interface de texto, começou a crescer. Ficou claro que, para garantir o futuro da empresa e dos nossos clientes, precisávamos construir uma ponte para o continente.

O Protótipo: A Nova Geração em Clipper e C++ Builder

Com a experiência adquirida no desenvolvimento de sistemas Clipper para o mercado de PMEs, e já dominando ambientes de desenvolvimento visual como o C++ Builder 6, a construção de um "plano B" tornou-se um projeto interno estratégico. Durante esse período, desenvolvemos, em paralelo, duas versões completas e modernizadas do nosso sistema de saúde: uma em Clipper e outra em C++ Builder.
Esses não eram simples portabilidades. Eram sistemas muito maiores e mais sofisticados, incorporando mais de 10 anos de aprendizado e feedback de clientes da área da saúde. Eles possuíam muito mais funcionalidades e facilidades do que a versão original em C/QNX. No entanto, por uma decisão estratégica, nenhuma dessas versões foi implantada em clientes. Elas eram nossos protótipos, nossos laboratórios de inovação, aguardando a plataforma certa para serem lançadas. Por dominar mais a linguagem e a metodologia, a versão em Clipper se tornou a base para o próximo grande salto.

A Descoberta: Flagship

A peça que faltava no quebra-cabeça veio de uma feira de software livre em Curitiba. Um colega de empresa voltou maravilhado, falando de uma ferramenta que parecia boa demais para ser verdade: o Flagship. Minha investigação confirmou: o Flagship era um compilador que pegava código-fonte Clipper/xBase e o compilava para rodar como um executável nativo em Linux.
A descoberta me deixou "sorrindo de orelha a orelha". A implicação era gigantesca: com um esforço mínimo de adaptação, estimado em cerca de 10% de alteração no código, poderíamos pegar toda a nossa nova e poderosa aplicação de saúde escrita em Clipper e portá-la para o Linux. O Linux, na época com a ascensão de distribuições como o Conectiva 8, representava o melhor de dois mundos: a estabilidade e o poder multiusuário de um sistema Unix-like, que já conhecíamos do QNX, mas com o benefício de ser uma plataforma aberta, em constante evolução e que rodava em qualquer PC padrão (leia também o artigo "O Cérebro da Operação – Desvendando o QNX").
O Flagship não era apenas uma ferramenta; era a chave que nos permitiria traduzir todo o nosso trabalho para a nova era, sem jogar fora anos de desenvolvimento.

O Processo de Desenvolvimento: Uma Adaptação Estratégica

Em um dos principais arquivos-fonte do nosso sistema Clipper, ilustra a complexidade do que tínhamos em mãos. Era um sistema completo, com gestão de múltiplos arquivos de banco de dados (.DBF) , interfaces de texto ricas, e até mesmo rotinas de criptografia próprias.

O processo de desenvolvimento para o Flagship/Linux foi, como previsto, uma adaptação, não uma reescrita. O trabalho principal consistiu em:

  • Ajustes de Sintaxe: Adequar pequenas diferenças entre o dialeto Clipper e o que o Flagship esperava.
  • Gerenciamento de Tela e Teclado: Garantir que a renderização das telas e a captura de teclas funcionassem perfeitamente nos terminais de console do Linux.
  • Acesso ao Sistema de Arquivos: Modificar as rotinas de acesso a arquivos para usar os caminhos e permissões do padrão Linux.
  • Impressão: Adaptar o sistema de impressão, que no DOS era direto para portas como LPT1, para o sistema de spooling do Linux (CUPS, LPR).
  • Integração com Ferramentas Externas: Para a geração de laudos, aplicamos a mesma filosofia que tínhamos no QNX. Os dados eram exportados e manipulados pelo OpenOffice (hoje LibreOffice), que se tornou a nossa ferramenta padrão para a criação de documentos formatados no ambiente Linux.

Conclusão

A decisão de construir a "ponte" para o Linux com o Flagship foi o movimento estratégico que garantiu a longevidade da CompCet e de seus clientes. Foi uma decisão baseada na observação atenta das tendências do mercado, na coragem de investir em uma nova plataforma (Linux) que ainda estava se consolidando no ambiente corporativo, e na genialidade de encontrar a ferramenta (Flagship) que maximizava o reaproveitamento do capital intelectual da empresa. A nova aplicação estava pronta, um motor potente aguardando o momento certo para entrar em ação e liderar a próxima fase da companhia.