Cleverton Bueno
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A Lição do Disquete de $100 e a Viagem no ônibus: O que a era pré-internet me ensinou sobre Humildade e Resiliência.

O artigo ensina humildade através da história de uma aposta arrogante de $100 perdida sobre um disquete 'incopiável' e resiliência ao descrever viagens noturnas de ônibus, programando num laptop 286 aos solavancos, para entregar correções de bugs pessoalmente às 7h da manhã.

Hoje, no mundo corporativo, falamos muito sobre "soft skills". Conceitos como "resiliência", "humildade" e "growth mindset" são ensinados em workshops e apresentações. Na minha geração, não tínhamos os workshops, mas aprendemos estas lições da forma mais dura e eficaz possível: na prática, através do fracasso público e da necessidade absoluta.

Duas histórias da minha carreira definem o que são, para mim, humildade e resiliência.

A primeira é a lição da humildade. Foi no meu último ano de faculdade. Eu achei que tinha descoberto o "grande trunfo": um método para criar um disquete de 5.1/4 polegadas que era impossível de copiar. Eu tentei de tudo o que era maneira e não consegui. Senti-me um gênio.

Num momento de extrema euforia, virei-me para um colega meu, o Fausto, e disse cheio de arrogância, que daria 100 dólares a quem conseguisse copiar aquele disquete. O que eu não contava era que o Fausto levou a sério o desafio, levando para o chefe dele, e esse chefe tinha um programa que eu nem sabia que existia. Esse programa fazia uma "cópia física", bit a bit, ignorando o sistema de arquivos. Na semana, o Fausto voltou à minha casa, não para admitir a derrota, mas para buscar os 100 dólares. O meu mundo caiu. Eu fiquei com uma vergonha absurda, primeiro por ter sido derrotado tão facilmente, e segundo (e pior) porque eu não tinha os 100 dólares para pagar a aposta. Tive de lhe pedir: "Fausto, por favor, inventa lá que tu ouviste mal, diz que eram 10 dólares". Ele, como um grande amigo, aceitou. Dei-lhe os 10 dólares e ele levou ao chefe, que me mandou o recado: disse que eu era um "cambão de 90 dólares". Naquele dia, aprendi a maior lição da minha carreira, uma que nenhum curso ensina: não importa o quão inteligente tu achas que és, haverá sempre, sempre, alguém que sabe mais do que tu.

A segunda lição foi sobre resiliência. Nos anos 90, antes da internet, o suporte ao cliente era um desafio logístico. Quando um cliente ligava com um bug, nós tínhamos de tentar entender o problema e simulá-lo na nossa máquina no escritório. Não havia conexão remota.

Quando descobríamos a correção, tínhamos de mandar programa corrigido num disquete e pelo correio. O cliente ficava dias com o sistema sem a funcionalidade em questão, à espera do disquete. Mas quando o incidente era muito grave, quando o cliente estava totalmente parado, o correio não era uma opção. Tínhamos de pegar no ônibus e ir até lá. E foi aí que a verdadeira resiliência era forjada.

Perdi a conta de quantas vezes peguei no meu notebook (um 286 na épocaa), entrei num ônibus noturno de Porto Alegre para Uruguaiana, uma viagem de 8 horas, e fui programando a noite inteira, sentado na poltrona. Eu tinha de usar àquelas horas de viagem para debbugar o código, encontrar o problema e gerar a nova versão, tudo isto aos solavancos da estrada. O objetivo era chegar a Uruguaiana às 7h da manhã, saltar do ônibus, ir direto para o cliente e já com a correção pronto na mão. Isso era "delivery". Isso era "compromisso".

Estas duas lições são os pilares da minha vida profissional. A humildade de saber que não sou dono da verdade e a resiliência para fazer o que for preciso, sob qualquer condição, para entregar a solução. O resto são apenas ferramentas.



Este artigo é baseado numa história de "Dos 5 Minutos de uma Fita Cassete a 40 Anos de Código", as memórias do autor.
Leia a história completa aqui.