Um Novo Horizonte – Clipper e a Conquista do Mercado PME
Este artigo narra a decisão estratégica de aprender Clipper para atender ao mercado de pequenas e médias empresas, diversificando os negócios com uma solução mais simples que rodava no popular MS-DOS.
Introdução: Uma Oportunidade Batendo à Porta
Com a fundação da CompCet em 1992 e sua formalização em 1993, a empresa já possuía uma reputação sólida no exigente mercado da saúde, graças à performance e confiabilidade do seu sistema em QNX. Essa reputação, construída em um nicho de alta complexidade, começou a ecoar em outros setores. Logo, donos de pequenas e médias empresas (PMEs) – lojas, pequenos comércios – começaram a procurar a CompCet em busca de sistemas customizados, atraídos pelos elogios que ouviam.
Isso apresentou um novo desafio e uma grande oportunidade. Para esses clientes, que muitas vezes possuíam um único computador, a arquitetura de um servidor QNX com terminais era um exagero técnico e financeiro. O mercado pedia uma solução mais simples, que rodasse no onipresente DOS. A resposta para essa demanda foi o Clipper. Em 1992, decidi aprender essa linguagem, não para substituir o QNX, mas para iniciar uma nova e estratégica frente de negócios, diversificando as operações da CompCet.
O Contraste de Mundos: C/QNX vs. Clipper/DOS
Desenvolver em Clipper era uma experiência radicalmente diferente do ambiente C/QNX. O C, especialmente no QNX, era uma linguagem de baixo nível, poderosa, que oferecia controle total sobre a memória e o hardware, essencial para extrair a máxima performance do sistema. No entanto, tarefas simples como criar uma tela de cadastro exigiam um esforço de programação considerável.
O Clipper, por outro lado, era uma linguagem de alto nível, um dialeto da família xBase (originada no dBase), criada especificamente para o desenvolvimento de aplicações de banco de dados. Tarefas que levavam centenas de linhas de código em C podiam ser resolvidas com poucos comandos em Clipper. A criação de interfaces de texto era simplificada com comandos como @ LINHA, COLUNA SAY "TÍTULO" GET variavel, e o acesso ao banco de dados era nativo da linguagem, com comandos como USE, SEEK e APPEND.
O Segredo da Produtividade: O Gerador de Código
Apesar da aparente simplicidade do Clipper, minha experiência anterior com o QNX me deu uma perspectiva única. Antes mesmo de aprender Clipper, eu já havia desenvolvido um gerador de programas para o ambiente QNX/C, uma ferramenta que reduzia o tempo de desenvolvimento de um sistema completo de meses para apenas uma semana.
Ao iniciar no Clipper, enfrentei as dificuldades naturais de uma nova linguagem. Mas, em vez de apenas me adaptar, identifiquei rapidamente os padrões de programação e decidi aplicar a mesma filosofia que usei no QNX: automatizar o desenvolvimento. O resultado foi a criação de um gerador de programas para Clipper (leia também o artigo "O Segredo da Produtividade – Como Construí um Gerador 'Low-Code' nos Anos 90").
Essa ferramenta foi um divisor de águas. Com ela, eu conseguia construir a estrutura completa de uma nova aplicação customizada – com cadastros, consultas e a base de dados – em um único dia. O que para muitos era um projeto de semanas, para nós se tornou um processo ágil e industrializado. Não era apenas que "Clipper era mais fácil"; era que nós havíamos construído uma "fábrica" de software em Clipper.
Uma Olhada no Código: Anatomia de uma Aplicação Clipper
Ao analisarmos um sistema que eu criei para uma loja de calçados, temos um exemplo perfeito dessa metodologia. Analisando o código, vemos:
- Estrutura Clara: O código começa com a declaração de variáveis LOCAL e PRIVATE, com uma nomenclatura padronizada (h para cabeçalho, p para produto, c para cliente), facilitando a manutenção.
- Interface de Texto (TUI): As telas são construídas com comandos @...SAY...GET, e a navegação em tabelas é feita com o objeto TBrowse (TBrowseDB, TBColumnNew), um recurso avançado que oferecia uma experiência de usuário mais rica.
- Acesso a Dados: O código demonstra o uso dos bancos de dados padrão do Clipper, os arquivos .DBF, com seus índices .NTX (posteriormente .NDX). Comandos como SELECT, SEEK e APPEND BLANK gerenciam os dados, enquanto COMMIT garante que as alterações sejam gravadas no disco.
- Evolução: Inicialmente, as aplicações rodavam em um único PC com DOS. Com a demanda dos clientes, elas foram adaptadas para funcionar em rede, o que exigiu a implementação de lógicas de travamento de arquivos e registros para permitir o acesso concorrente aos dados.
O Impacto no Negócio: Uma Ponte para o Futuro
A linha de produtos em Clipper, embora não fosse o carro-chefe, tornou-se uma parte vital para nossa empresa, chegando a representar 30% do faturamento. O modelo de negócio era claro: todas as aplicações eram 100% customizadas para atender às necessidades específicas de cada cliente, um grande diferencial em um mercado que começava a se mover para softwares "de prateleira".
Mas o maior legado dessa diversificação não foi apenas o financeiro. Ao dominar o Clipper e o ecossistema xBase, e ao construir uma base de código sólida para dezenas de clientes, estávamos, sem saber na época, construindo a nossa ponte para o futuro. Foi essa expertise e esse código que, anos mais tarde, nos permitiriam realizar a grande migração do QNX para o Flagship, o "Clipper para Linux", garantindo a sobrevivência e a modernização da nossa base de clientes da área da saúde.
A aventura no mundo Clipper foi, portanto, uma jogada estratégica que não apenas abriu um novo mercado, mas também plantou as sementes da próxima grande evolução da nossa empresa.